- k., esse desconhecido -
todo grande artista tem seus personagens perfeitamente delineados no mundo de letras fortes que compõem. mero esboço de escritor, produzo traços pontilhados, frágeis e cheios de dúvida que chamo de gente.
k., dentre estes seres, é o mais obscuro, incoerente, antagônico, maldito. k. não passa de uma sombra de tantos outros sujeitos indefinidos - o que o torna um rascunho de contornos perdidos no escuro.
k. é homem, mas muitas vezes acorda mulher. k. beija, mas se proíbe de ser beijado; engole e enrola a língua. k. não tem sexo definido e não vive sem sexo - o que o faz quase normal diante de tanta modernidade.
k. fala com sotaque nordestino, mas carrega nos 'erres', enche os 'esses' de chiado, tropeça no português como se estrangeiro fosse - o que o faz quase normal diante de tanta globalização.
k. é petista, comunista, neoliberal e anarquista. não discute política de boca cheia e engole todos os sapos em nome de sua convicção. k. não aceita suborno para mudar de idéia ou de voto, mas adora agrados - o que quase o faz normal diante de todo sujeita.
k. não tem filhos, nem tampouco caso e endereço certo. k. é homem sério e fiel às suas infidelidades; não acredita no trabalho e em casamento, mas, às vezes, vê-se crente do amor eterno e da hora extra aos domingos de praia - o que quase o faz normal diante da rotina.
k. nada tem de normal. k. nasceu pela metade.
- adega -
embaixo do meu prédio existe 'a' adega.
moro em copacabana, no centro movimentado, próximo à nova e demorada estação de metrô que se instalou na siqueira campos. um apartamento grande, caro e pertecente a um português sovina, onde moram velhos rabugentos, porteiros dorminhocos e um cachorro babão ao meu lado.
mas não saio dali; dali ninguém me tira: pois são doze passos do balcão até a portaria, a distância ideal para se ter um botequim qualquer como perfeito - 'a' adega, então, mais do que isso.
se ainda morasse sob as saias controladoras da minha mãe, certamente teria que ouvir um sermão diário, suficiente para me convencer a mudar o rumo, passar por ali como se não quisesse entrar, empinar o nariz até o ponto máximo para ninguém me querer cumprimentar.
minha mãe mora longe e nem imagina que as aulas de direito que teria na faculdade, eu aprendo encostado ao balcão, bebendo dia com um tabelião; enchendo a cara, outro, com o advogado do traficante do bairro.
de tudo acontece, e acontece sempre, versos de repente, crônicas bem pensadas. 'a' adega se tornou um repositório de idéias tão grande que me proibiria de calar diante de um teclado com todos as letras, de uma tela com tanto espaço, de um povo insistente que me lê esperando que um dia eu tenha algo de real para contar.
nada mais real do que a vida, as pessoas e os petiscos da adega.
- lingüicinha -
inusitado. é a única palavra educada que poderia encaixar para descrever a cena: um sujeito magro, barrigudo, cabelos ralos em uma cabeça grande, gravata pendura torta no pescoço, camisa escapando da calça curta, um sujeito cômico mesmo imóvel, quase um palhaço em um quadro pintado, gritando para um cachorro ao pé da calçada palavras enormes em um idioma que, aparentemente, era o japonês.
não era japonês. outro dia, depois que o inusitado pareceu simpático e puxou uma conversa casual comigo (que deve ter começado pelo uso comum da gravata, pela adoração semelhante ao chope) nesse dia, ele me contou que gritava um idioma seu, inventado, que entendia ser malígno pela ira que causava aos inocentes caninos.
o lingüicinha frenqüenta a adega diariamente, bate o ponto com quinze chopes, sem cair bêbado, sem possibilidades de ressaca na manhã seguinte. antes mesmo dessa notícia, pela simples presença da barriga absurda em um corpo de magro, já sabia que a bebida cevada lhe pertencia como se lhe fosse parte integrante, um sangue amarelo que se busca no bar para curar a incapacidade do seu organismo de lha proporcionar gratuitamente.
não me parece alcóolatra, não me parece doente. ao contrário, alegra-me por manter presente o lendário sujeito boêmio, que vive nos bares, que sobrevive da bebida, que carrega os males ao lado seu como se bem fosse, que não permite aos outros a menor fofoca, um comentário mesquinho qualquer a lhe arranhar a reputação.
não, o lingüicinha é um cara que (eliminando-se as aparências redondas, pois somente o espírito é eterno) atende aos desejos de todo homem sóbrio: beber sem arrependimento, aproveitar o álcool sem ter que prometer que 'nunca mais irá beber'.
carrega no vão pouco espaçoso entre seus braços e a barriga um livro sobre dionísio (a quem brinda cada copo de chope), outro de bruxaria e outro de política. entrega no espaço largo das noites cariocas uma lição qualquer perdida nessa atribulada vida, um conto cômico, um ensinamento sincero sem graça nenhuma.
e tudo sem deixar escapar aos desconhecidos soltos do outro lado de fora, a imagem inusitada, a curiosidade que amedronta.
- mad teacher -
contrariando o nome, mad teacher tem um semblante bondoso, um rosto redondo, óculos grandes de armação larga em seu entorno.
ensina inglês nas horas sóbrias, ensina economia nas horas vagas.
mas, olhando friamente, o chope gelado descendo goela abaixo, garganta adentro, não me vejo de forma alguma escutando seus ensinamentos, aprendendo mais do que se pode aprender ali, na prática, vendo o sujeito sorrindo, roupa amassada, carteira velha, sem maiores pretensões do que arrumar uma maneira de pagar a próxima bebida.
- zé -
ocasionamente, estou no maracanã. sou vascaíno, gosto de futebol, detesto são januário.
e por ser vascaíno, vejo sempre jogos do fluminense no maraca (pois o vasco lá não joga, e do flamengo, não me posso aproximar).
sento nas cadeiras brancas, no local calculado metade do campo, metade da altura da arquibancada, ao lado do sujeito sempre presente que chamo de zé.
um senhor, seus cinqüenta anos, barriga em destaque, gorrinho tricolor na cabeça redonda. os óculos balançam no nariz, a camisa do time de oitenta e dois ('a mais bonita de todos os tempos') lhe enforca o abdômen.
invariavelmente, carrega um hot dog na mão direita, um mate na outra, os olhos pregados no tapete verde.
sem educação, sem conhecimento, sem preocupação nenhuma que lhe faça infeliz quando o time ganha.
- w. -
certamente w. morrerá de cirrose, ou de qualquer outra complicação provocada pelo álcool, ou qualquer complicação que ele próprio possa provocar.
morrerá cedo, com certeza, mas não de uma forma agonizante que lhe permita os instantes suficientes em um hospital para que se arrependa dos tragos que deu, da fumaça que engoliu, dos remédios que destratou.
talvez por isso mesmo, entrega-se a todos os vícios de uma só vez; leva uma vida mundana, hedonista. em todas as vezes que falou comigo, percebi em sua voz a pressa - não quer perder tempo com os percalços; busca o prazer, o carpe diem.
entretanto, a cada silêncio, olho para ele e enxergo um garoto choroso em todas as noites que adormece sóbrio e solitário, descobrindo seus sentimentos, entregando-se à saudade, lembrando-se de alguém que lhe faça falta.
percebo sua luta para mudar de assunto em seu diálogo interior, 'não quero falar sobre isso, peça mais um chope'. não se abre consigo mesmo, tampouco com os amigos. afasta-se de quem lhe despeja conselhos.
outro dia pedi que parasse um pouco com a bebida, com o cigarro, com as putas, até; que buscasse uma vida um pouco mais regrada, relacionamentos duradouros, uma namorada, um cachorro, uma planta que fosse.
percebi o desprezo; e reatei a amizade chamando-o para tomar um vinho no nosso boteco preferido.
deixará a vida em uma morte trágica, é certo. os amigos chorando no canto de um desses bares que costumam ir, relembrando méritos, recontando causos. 'vinte e poucos anos, como era jovem'. enquanto será enterrado, os últimos montes de terra sobre o caixão, e aquele sorriso inconfundível ainda estampado na face.
morrerá rindo, sem dúvidas. feliz, provavelmente.
- m. -
a primeira vez que vi m. foi em uma dessas festas baratas que fazemos na casa de um amigo qualquer que abra as portas.
m. gritou, 'bocetão cabeludo'. e quase todas meninas abriram a boca horrorizada com aquela expressão que, confesso, nunca havia escutado antes.
eu, além de achar meigo o modo como m. terminou de desenhar sua exclamação, encatei-me com a originalidade, principalmente quando, encarando as meninas do lado - que mantiveram por horas a cara escandalizada - tive a certeza que elas teriam dito 'porra', da maneira mais comum e ordinária.
- ana -
a primeira mulher que amei, confesso, chamava-se ana. e não existia. era uma mistura de umas tantas mulheres imperfeitas, uma intersecção dos seus cantos mais afáveis.
todas as outras que amei em seguida não existiram da mesma maneira. continuavam imperfeitas, feitas ideais em minha ânsia por estar amando.
tudo isso para dizer que todas as mulheres que venha eu usar em meus relatos se passarão a chamar ana. porque todas elas, anas, por mais reais que sejam não passaram de uma triste e fácil mentira.